Cidades pequenas impulsionam o pedalar no Brasil

Os fatores que tornam ciclista uma cidade, principalmente na concepção dos metropolitanos, são investimentos em infraestrutura cicloviária, educação no trânsito, políticas de redução do uso de carros e por aí vai. Tudo isso está certo, mas não é só tudo isso! Um outro fator, este muito mais difícil de ser colocado na equação, é que em muitas cidades brasileiras, sobretudo nas pequenas, as pessoas pedalam porque… porque sim!

Independente de ruas esburacadas, falta de investimento público e do ideal que representa carros e motos no imaginário da ascensão financeira, essas cidades seguem pedalando. Na realidade, nas cidades onde mais se anda de bicicleta, proporcionalmente, são onde as políticas de mobilidade foram omissas, mas deram espaço para a sabedoria popular.  

“É uma cultura que passa de geração em geração nas cidades pequenas. As pessoas andam de bicicleta porque sempre andaram. Não tem muita reflexão, é um meio de transporte que faz parte da vida deles”, diz André Soares, membro da União de Ciclistas do Brasil (UCB) e um dos organizadores do livro O Brasil que pedala – a cultura da bicicleta nas cidades pequenas. 

Lançado em 2019, o livro é uma produção da UCB, junto da Aliança Bike – associação de empresas do setor de bicicletas, além das organizações sem fins lucrativos Bicicleta para Todos e Bike Anjo. Ao todo, a obra traz a rotina de 11 pequenas cidades brasileiras  (com menos de 100 mil habitantes). Foram realizadas entrevistas sobre a motivação dos ciclistas, assim como também pesquisas sobre a distribuição dos modais nesses espaços. Um recorte técnico, e ao mesmo tempo humano, da dinâmica do pedal no Brasil que não é metrópole.

Exemplos como de Afuá, no Pará, que guarda um dos piores Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) da região, mas tem a bike como cultura viva. Os moradores as estacionam sem correntes, umas apoiadas nas outras, como um dos exemplos de segurança comunitária que cidade tem e que foge aos olhos de outros Brasis. Também é lá uma das cidades onde há menos acidentes no trânsito, mesmo sem qualquer incentivo público relevante para isto. 

De acordo com Soares, a obra não tem a função de apresentar um modelo de mobilidade a ser implementado na metrópole, mas sim ser uma homenagem às cidades pequenas que sempre usaram as bicicletas em seus trajetos. “São duas coisas bem diferentes: na metrópole há um esgotamento do tráfego viário, o que pressiona os governantes a repensar o papel da bicicleta no ambiente urbano. Ou seja, o problema já aconteceu e agora é hora de arrumar”, explica o coordenador de pesquisa da UCB. 

No outro lado, nas cidades pequenas o principal desafio é conter a cultura da industrialização que chega acelerando em duas e quatro rodas. Entre os dados apresentados na obra, o mais preocupante é a índice de motorização nas cidades pequenas que cresce exponencialmente desde 2001. Há municípios com aumento de mais 600% no número de carros, e principalmente motos.

“A ideia de que o veículo motor faz parte de um status de ascensão social chega em todo lugar. É um conceito global que não foge nas pequenas cidades do Brasil. Mas o que a gente vê, mesmo assim, é que a bicicleta segue sendo importante. Que pessoas seguem pedalando independente da indústria cultural”, relata Soares. 

Desta forma, o livro se torna uma afirmação positiva da cultura da bicicleta nas cidades pequenas. Muito além de um alerta ao desenvolvimentismo ou de um exemplo a ser seguido Brasil afora, a obra é um retrato do cotidiano de quem pedala sem muitas vezes saber a importância desta atitude para o país.

O Brasil que pedala – a cultura da bicicleta nas cidades pequenas está disponível  gratuitamente na internet. Acesse a obra aqui.

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